quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Luma Andrade é destaque na revista Superinteressante.


A boa educação

15 FEVEREIRO 2012 UM COMENTÁRIO
Por William Vieira
A transexual Luma Andrade enfrentou a pobreza do sertão, a rejeição da família e o preconceito no trabalho para se tornar supervisora de 26 escolas e fazer doutorado em educação. O próximo passo? Se depender de sua vontade, a Sorbonne.
A vida não era fácil naqueles anos 70 em Morada Nova, cidade de 60 mil habitantes no meio da caatinga do Ceará. Mas foi ainda mais difícil para o único filho homem do segundo casamento de dona Maria Nogueira Gomes. O casal de agricultores analfabetos não sabia lidar com a especificidade do pequeno João.
“Eu já sentia a singularidade de ser feminina. Quando saía com meu pai, todo mundo dizia: ‘Ai, que menina bonitinha’. Aí ele ficou com vergonha e não andou mais comigo”. Triste. Mas quem conta, sem rancor nem autocomiseração, é a sorridente Luma Andrade, uma mulher que ostenta o título de primeira transexual doutoranda do país.
O percurso até aí foi longo e tortuoso. Luma, ainda como João, se interessou pelos estudos cedo, mas sofria bullying na escola. Apanhava dos meninos por brincar com as meninas. Aos 9 anos, foi espancada. Ao reclamar à professora, ouviu a seguinte frase: “Quem manda você ser assim?”.
Luma não ia ao banheiro; não sabia a qual ir. “Às vezes eu nem me concentrava na aula, de tanta vontade de fazer xixi. Só ia escondida”. Apesar de sentir atração por rapazes, Luma não se via como homossexual. “Então acabei canalizando a questão da sensualidade para os estudos”. Até Deus entrou na história. Aos 14 anos, ela decidiu frequentar uma igreja evangélica com a avó. Lia a Bíblia todos os dias. “Mas fiquei assustada com a construção da ideia de pecado”. Ela ainda procurou a igreja católica. “Mas logo vi que esse Deus não me amava como eu era”.
Aos 18 anos, já com os cabelos compridos e roupas femininas, entrou na faculdade, pra estudar ciências. Comprava tecido e mandava fazer, escondida da família. Vestia-se na rua. E começou a dar aulas em uma escola. Foi Luma terminar a graduação, aos 22 anos, e a família descobrir que ela tinha um namorado. Foi posta para fora de casa. E decidiu se assumir de vez e viver com o namorado, travestida. Luma então cita Michel Foucault, filósofo francês pós-estruturalista, para explicar sua tática. “Para tentar ascensão social, é preciso entrar na engrenagem, ganhar respeito, evitar bater de frente. Foi o que eu fiz”.
Para fazer pós-graduação, tentou transferir-se para uma escola perto. O diretor não a aceitou e Luma recorreu à Secretaria da Educação. “No início, achavam que era brincadeira. Olha o viadinho, os alunos diziam. Mas aí eu contava a minha história de vida. E, aos poucos, começavam a me respeitar”.
Luma então começou um mestrado em meio ambiente. O bolso apertou e ela se viu confrontada com a realidade de travestis brasileiros. Uma colega de infância lhe ofereceu um emprego de prostituição. “Ela dizia: ‘Vamos para a Itália. Em um mês você vai ganhar o que faria aqui em um ano’”. Mas Luma recusou a proposta. Em 2003, fez um concurso para ensinar biologia e ficou em primeiro lugar. A escola, em Aracati, não quis lhe dar a vaga. E lá foi Luma recorrer à Secretaria de Educação.
Um ano depois, pôs próteses de silicone nos seios. Como foi a aceitação ao seu redor? Preconceito. Ela teve de enfrentar denúncia de decoro de uma supervisora, que a acusou de se mostrar aos alunos. Luma fez um abaixo-assinado entre a comunidade e conseguiu se defender. Melhor, deu início a um projeto de prevenção ao câncer de mama entre alunas e mães. Ganhou um prêmio nacional – ela conta que recebeu o prêmio do ministro da Educação, além de um cheque de R$20 mil que cedeu à escola para montar um laboratório de ciências. O reconhecimento continuou. Em 2007 virou supervisora de 26 escolas da região de Russas, no Ceará. E, em 2008, foi aceita no doutorado em educação, para estudar a condição dos travestis no ambiente escolar.
Claro, também houve dificuldades. Num concurso de professora universitária, foi reprovada por uma banca evangélica. Não conseguiu ser aceita noutro. E voltou à Justiça.
Hoje é assessora técnica da Secretaria da Educação do Ceará. Mora com o namorado. Mudou o nome de batismo na Justiça – é Luma Nogueira de Andrade o que aparece em seu currículo na plataforma Lattes. O próximo passo, diz, é um pós-doutorado na França – “Cogito a Sorbonne, onde Foucault deu importantes seminários” – e uma cadeira definitiva de professora universitária. Até lá, segue como uma referência na região de Russas, onde fundou a Associação Russana da Diversidade Humana, que defende travestis ameaçadas.
Texto extraído da revista “Superinteressante – Edição Especial Superação, Dez/2011

Luma Andrade é o grande destaque do Carnaval de Russas 2012.

Sem dúvidas, Luma Andrade é um ícone quando falamos em trabalhos sociais, principalmente em trabalhos que envolvem luta contra o preconceito e a discriminação. Mais do que isso, a primeira travesti a chegar ao doutorado no Brasil e presidenta da Associação Russana da Diversidade Humana foi um dos grandes destaques deste carnaval. Luma homenageou ninguém menos que Carmem Miranda, uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. Crianças, jovens e adultos queriam registrar o momento tirando fotos ao lado de Luma, que trouxe para a Avenida Dom Lino fantasias glamourosas, carisma, simpatia e muito samba no pé. Confira abaixo, fotos do impecável desfile de Luma Andrade no carnaval 2012.






Confira as fotos de domingo e de terça-feira

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Diário do Nordeste posta matéria sobre o Bloco da ARDH no Carnaval 2012.


CARNAVAL – Fantasias e diversidade no desfile de blocos em Russas

Publicado em 20/02/2012 - 22:58 por  | Comentar
CategoriasCulturaEventosTurismo


Todo o glamour de Luma Andrade representando Carmem Miranda
 O destaque para o carnaval de Russas está nas fantasias dos brincantes de rua. Depois da abertura com o Carnaval da Saudade com marchinhas pela Orquestra de Frevo Mestre Messias, a população divertiu-se com os blocos carnavalescos Brincantes na Folia, Bloco das Virgens, Bateria e Bloco Coração Russano e “Ai se eu te pego”, este em homenagem ao brincante Joaquim da Cabocla. Depois do carnaval de rua acontece a festa, gratuita, na Associação Atlética e Cultural de Russas.
O glamour ficou por conta do Bloco das Virgens, liderado pela professora Luma Andrade, também presidente da Associação Russana da Diversidade Humana (ARDH), que reúne gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.
O carnaval de Russas ainda tem os shows de Paulo Ney e Banda e Pegada Black.


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


Travesti Luma Andrade entrega presentes da “Diversidade Solidária”


Diversidade Solidária foi o título da campanha natalina da Associação Russana da Diversidade Humana (ARDH), que congrega principalmente gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Os associados fizeram entrega de cestas básicas para famílias carentes do Brejo (“Mutirão Velho”), além de brinquedos para crianças e distribuição de camisetas da II Parada Regional da Diversidade Humana, ocorrida no início do mês. A presidente da ARDH, travesti Luma Andrade (conhecida nacionalmente por ser a primeira travesti a cursar doutorado no Brasil) fez a entrega dos presentes. A associação faz trabalhos sociais e educativos na região jaguaribana, servindo de exemplo.

                                                      Confira a matéria completa aqui
Travesti Luma Andrade entrega presente a criança carente de Russas. Foto: Divulgação

sábado, 3 de dezembro de 2011

Um pouco mais sobre a travesti Luma Andrade.



Desde os nove anos, Luma Andrade (ou João Filho Nogueira de Andrade) sofre preconceito por ser “diferente”. Agora, aos 31 anos, para compreender essa rejeição, Luma Andrade – como prefere ser chamada – ingressou no doutorado em Educação na Universidade Federal do Ceará, tornando-se, oficialmente, o primeiro travesti a alcançar esse nível da carreira acadêmica no país, de acordo com a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Luma é também servidora concursada do Estado, na Secretaria da Educação. Coordena 28 escolas em 13 municípios do interior do Ceará. A função permite que ela intervenha em casos como o de uma diretora que chamou os pais para reclamar que o filho era gay e de outra que queria impedir a entrada de alunos travestis que usassem batom. “Falei que isso não era certo, que era imoral. É preciso que entendam que a própria Constituição garante o direito de todos à educação, sem discriminação”, disse Luma, que sempre viveu em cidades do interior.

Luma hoje mora em Russas (165 km de Fortaleza). De acordo com ela mesma, o que enfrenta atualmente por ser travesti tem sido bem diferente do vivido pela maioria dos travestis de grandes centros urbanos. Filha de analfabetos pobres, ela disse que já chegou até a receber convites para “fazer programas”, mas que decidiu estudar para ajudar a família. A primeira dificuldade enfrentada por ela foi na terceira série, quando, por só brincar com meninas, apanhou de um colega da sala. “Quando fui chorando contar para a professora, ela virou e disse: “Bem feito, quem manda você ser desse jeito?”.

Educadora é premiada em Brasília.


A luta contra a homofobia e pelo direito à diversidade sexual eleva à premiação professora cearense

Russas. Quando no início do mês de novembro recebeu duas correspondências do Congresso Nacional, em Brasília, para participar de discussões sobre direitos dos homossexuais, Luma Andrade viu que sua luta só estava no começo. Professora, pedagoga, doutoranda, travesti, pioneira, debateu na audiência o "Bullying Homofóbico nas Escolas" e no Senado Federal recebeu o Prêmio Educando pela Diversidade Sexual, na semana passada. Em tempos de sintomáticas agressões contra homossexuais, a professora deste Município e presidente da Associação Russana da Diversidade Humana tem trabalho considerado referencial para o País.

Na semana passada, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou projeto de lei da Câmara, que autoriza a mudança de nome de pessoas transexuais sem vínculo com cirurgia. É o caso de Luma Andrade, a primeira no Ceará a conseguir na Justiça a mudança do nome. Um dia antes de acompanhar a audiência legislativa, a educadora participou do seminário "Escola sem homofobia". O evento foi um pedido da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais (ABGLT).

Luma aponta a deficiência no ensino aos jovens e defende a capacitação dos professores nas escolas, para lidarem com questões como a tolerância sobre os direitos sexuais, um trabalho que não se resuma a acusações e punições, mas o entendimento de que tanto professor quanto aluno são sujeitos culturais.

"Até mesmo o professor com instrução está influenciado pela bagagem cultural de antes de se capacitar como transmissor de conhecimento", afirma a educadora cearense.

Créditos: Diário do Nordeste.
Link da Matéria aqui